Em 2005, eu fazia parte de um grupo de catequese na igreja. Eu era recém-casada, morava havia pouco tempo na comunidade e ainda estava tentando encontrar o meu lugar ali. Queria fazer parte, criar laços, sentir que eu também pertencia àquele grupo.
Todos os meses, quando alguém fazia aniversário, nós nos reuníamos, fazíamos uma vaquinha e comprávamos um bolo, alguns salgados e refrigerante. Era uma forma simples de dizer: "Nós lembramos de você."
Eu participava de todas as comemorações. Contribuía como todos os outros.
Em junho, chegou o meu aniversário.
Naquele mês, eu era a única aniversariante da catequese.
No dia da reunião, algumas pessoas subiram para arrumar uma surpresa. Pediram que eu esperasse lá embaixo.
"Calma... agora nós vamos entrar."
Naquele instante, eu tive certeza de que era para mim.
Pela primeira vez, eu seria a pessoa lembrada.
Eu ainda consigo sentir a expectativa daqueles poucos segundos.
Quando subi as escadas, encontrei o bolo, os salgados, os refrigerantes, os sorrisos... mas nada daquilo era para mim.
A comemoração era para o filho de uma das participantes, que também havia feito aniversário naquele mês.
Naquele momento, eu senti uma vergonha que nunca consegui explicar.
Eu precisava de um lugar para esconder o meu rosto, porque ele devia estar mostrando exatamente o tamanho da minha decepção. Eu precisava fingir que estava tudo bem, sorrir, cantar parabéns, agir como se nada tivesse acontecido.
Mas, por dentro, alguma coisa se quebrou.
Hoje eu entendo que nunca foi sobre um bolo.
Também nunca foi sobre uma festa.
Foi sobre acreditar, por alguns segundos, que eu fazia parte daquele grupo.
Foi sobre imaginar que alguém havia se lembrado de mim.
Foi sobre desejar, ainda que sem perceber, ser acolhida.
Naqueles poucos segundos, eu pensei que era importante para aquelas pessoas.
Quando descobri que não era, perdi muito mais do que uma comemoração.
Perdi a sensação de pertencimento.
Perdi a sensação de ser lembrada.
Perdi a sensação de que alguém tinha pensado em mim com carinho.
Talvez quem organizou aquela comemoração nunca tenha percebido o que aconteceu comigo. Talvez nunca tenha sido por mal. Talvez ninguém tenha imaginado que aquele pequeno episódio pudesse machucar alguém dessa forma.
Mas machucou.
E machucou profundamente.
Passei anos sem contar essa história para absolutamente ninguém.
Sempre que ela voltava à minha memória, eu chorava.
Porque, para quem olha de fora, parece uma história pequena.
"Era só um bolo."
Mas, para mim, nunca foi um bolo.
Foi uma ferida silenciosa que me acompanhou por vinte e um anos.
Hoje, pela primeira vez, eu estou contando.
Não porque eu espere que alguém conserte aquele dia.
Não porque eu queira que alguém diga quem estava certo ou errado.
Estou contando porque algumas dores não precisam de uma solução.
Elas só precisavam, finalmente, encontrar um lugar onde pudessem existir fora de nós.
E talvez seja isso que eu tenha procurado durante todos esses anos: não uma resposta, mas um lugar onde a minha história pudesse, enfim, ser recebida.
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